O distrito de São Sebastião do Soberbo, pertencente ao município de Santa Cruz do Escalvado, teve sua origem em um pequeno povoado formado em torno de uma capela dedicada a São Sebastião, padroeiro local. O nome “Soberbo” está associado ao comportamento do Rio Doce, que, durante os períodos de cheia, era descrito pelos moradores como um rio que “ficava soberbo”. Ao longo de sua história, o desenvolvimento da comunidade esteve profundamente ligado às práticas ribeirinhas, uma vez que o Rio Doce estruturava não apenas a economia local, baseada na agricultura e na pesca, mas também os vínculos culturais e sociais que constituíam a identidade coletiva dos moradores.
Essa realidade foi profundamente transformada com a implantação da Usina Hidrelétrica Candonga, posteriormente denominada Usina Hidrelétrica Risoleta Neves. Construída entre 2001 e 2004 por um consórcio formado pelas empresas Vale e Alcan, a usina provocou significativas alterações na dinâmica territorial de São Sebastião do Soberbo. O enchimento do reservatório resultou na inundação de aproximadamente 286 hectares, abrangendo terras produtivas, trechos do Rio Doce e de seus afluentes, além de ocasionar o deslocamento compulsório de cerca de 280 pessoas (BATISTA, 2013).
"Mais do que um acontecimento físico, a barragem configurou-se como um verdadeiro acontecimento social, marcado pela ruptura com modos de vida tradicionais, com memórias coletivas e vínculos territoriais"
(BATISTA, 2013)
Além das perdas materiais, os impactos também ocorreram no campo simbólico e afetivo. Batista (2013) demonstra que, apesar das tentativas de implementação de projetos de reativação econômica, muitos reassentados enfrentaram dificuldades materiais e emocionais para reconstruir seus meios de subsistência e suas relações com o território. Nesse processo, a comunidade passou a ser identificada como “atingida por barragem”, categoria que expressa não apenas o deslocamento físico, mas também a busca por reconhecimento social, reparação de danos e garantia de direitos.
Somam-se a esses aspectos as dificuldades relacionadas à reprodução das atividades produtivas. A perda das áreas destinadas ao cultivo e da relação cotidiana com a terra tornou-se um dos principais impactos percebidos pela população. Nesse contexto, uma moradora sintetizou sua insatisfação ao afirmar que “em asfalto não nasce feijão” (BATISTA, 2013, p. 95), evidenciando as limitações do reassentamento em reproduzir as condições de vida existentes anteriormente.
Silva (2018) reforça esse diagnóstico ao destacar que o deslocamento compulsório provocou a perda não apenas da infraestrutura material da comunidade, mas também de importantes referências simbólicas e afetivas, como a igreja, o cemitério, os quintais e os espaços de convivência coletiva. Embora Nova Soberbo oferecesse melhores condições urbanísticas, o reassentamento não foi capaz de substituir os vínculos históricos que conectavam os moradores ao território ancestral. Segundo o autor, esse processo resultou em um “desenraizamento forçado”, no qual memórias, práticas culturais e tradições precisaram ser reconstruídas de forma fragmentada em um novo contexto espacial (SILVA, 2018).
A Igreja de São Sebastião, construída no ponto mais elevado do distrito, permanece como o principal símbolo da fé local, mantendo vivas as tradições e celebrações religiosas que marcam o calendário da comunidade.
A festa do padroeiro, realizada em janeiro, destaca-se como o evento mais importante do calendário católico da região, reunindo fiéis de diversas localidades, como Jerônimo, Viana e Pedra do Escalvado. Durante essa celebração, preservam-se rituais tradicionais, como a procissão da bandeira e as novenas, que reforçam o sentimento de devoção e pertencimento comunitário.
Ao longo do ano, outras festividades religiosas também movimentam a vida da comunidade, como as homenagens a Nossa Senhora, em maio, e a festa de Nossa Senhora Aparecida, em outubro, mantendo viva a religiosidade e a identidade cultural do distrito.
"Quando o rompimento da barragem de Fundão trouxe tempos difíceis, foram os laços antigos entre moradores que trouxeram força e união para apoiá-los a seguir em frente. "
(Caminhos da Mémoria, acesso 2025)
A construção da Usina Hidrelétrica Candonga (depois renomeada Risoleta Neves), empreendimento do consórcio formado pela Vale e pela Alcan, entre 2001 e 2004, provocou profundas transformações em São Sebastião do Soberbo, distrito de Santa Cruz do Escalvado. O enchimento do reservatório levou à inundação de cerca de 286 hectares, atingindo terras produtivas, o leito do rio e seus afluentes, além de provocar o deslocamento compulsório de aproximadamente 280 pessoas (BATISTA, 2013).
"Mais do que um acontecimento físico, a barragem configurou-se como um verdadeiro acontecimento social, marcado pela ruptura com modos de vida tradicionais, com memórias coletivas e vínculos territoriais"
(BATISTA, 2013)
Como resposta ao deslocamento, foi criado o reassentamento de Nova Soberbo, para onde cerca de 120 famílias foram transferidas entre 2003 e 2004. Embora o novo espaço apresentasse uma estrutura física planejada, com casas padronizadas e ruas asfaltadas, os moradores relataram a perda de práticas cotidianas ligadas à agricultura de subsistência e à relação direta com a terra. Nesse sentido, uma moradora sintetizou a frustração ao afirmar que “em asfalto não nasce feijão” (BATISTA, 2013, p. 95), expressão que revela a dificuldade de reprodução dos modos de vida anteriores.
Além das perdas materiais, os impactos foram também subjetivos, afetando sentimentos de pertencimento e identidade cultural. Batista (2013) demonstra que, apesar das tentativas de projetos de reativação econômica, muitos reassentados enfrentaram limitações materiais e emocionais para reconstruir seus meios de vida. Nesse contexto, a comunidade passou a se identificar e a ser reconhecida como “atingida por barragem”, categoria social que envolve não apenas deslocamento físico, mas também a luta pelo reconhecimento de direitos e pela reparação de danos.
Silva, (2018) reforçam esse diagnóstico ao destacar que o deslocamento compulsório destruiu não apenas a infraestrutura material da comunidade, mas também suas referências simbólicas e afetivas, como a igreja, o cemitério, os quintais e os espaços de convivência. O reassentamento, apesar de oferecer condições habitacionais modernas, não conseguiu substituir os vínculos que ligavam os moradores ao território ancestral. Segundo os autores, esse processo produziu uma espécie de “desenraizamento forçado”, em que memórias e tradições foram abruptamente interrompidas e passaram a ser reconstruídas de forma fragmentada em Nova Soberbo (SILVA, 2018).